sábado, 9 de agosto de 2008

IN MEMORIAM de LUIZ HENRIQUE SCHWANKE


Não adianta perguntar

por que.

Os cisnes da consciência

velejaram para outras margens.

O bosque fez-se silêncio.

Partiram os olhos da paisagem.

E o canto triste

transitou rumo ao desconhecido,

aos elos perdidos.


O belo canto do amanhecer,

da beleza,

do ser,

decidiu se recolher.


Um outro canto

te aqueceu naquele dia.

Sobre a lápide

um nome - uma palavra fria.



Foto: http://www.schwanke.org.br/
(Luiz Henrique Schwanke 1951-1992)

(pinçado do meu livro "Asas ao Anoitecer",
Fundação Cultural de Curitiba, 2005)

LUZ REAL




Alguma fonte espera mãos.


À luz do dia, a imensa primavera


há de chegar.


Os caminhos serão retificados


o altar não será perdido no mar.


A carne falará do azul dos céus


e do calor das terras perfumadas.


Deus terá um rosto


- o teu e o meu -


e a vida será poesia viva


nunca publicada.






(direitos autorais reservados).






sexta-feira, 8 de agosto de 2008

MARIA




Maria, arcana


de um mundo consentido


em prazer e dor.


Em todos os silêncios,


em todas as ausências,


mais forte que o trigo


nas mãos da inocência.


Flor do linho eterno,


sou só


mais um pássaro que se aninha


nesta tua


catedral marinha.






(pinçado do meu livro "Asas ao Anoitecer"


Fundação Cultural de Curitiba, 2005)




Direitos autorais reservados.

CONFISSÃO




Amo a Deus assim


com meu olhar vazio


que purgou


todos os enredos de amor.


Que foi bacilo, cidadela


e flor.


Amo a Deus assim


como se minha alma fosse só


uma pequena pousada


na lufada transformada em pó.






(pinçada do meu livro "Asas Ao Anoitecer"


Fundação Cultural de Curitiba, 2005)




Direitos autorais reservados.

ACEITAÇÃO


Com este gosto de infinito

sinto a noite chegar,

e ajeitar-se em minhas veias,

que abrigam celas,

sombras

e estrelas.


De um atol de nuvens

perpétuos olhos me fitam

como vaga-lumes exilados

do meu céu aflito.


Porém minha alma perdoa

este gesto que voa

este abraço não gerado

e desta noite a mordaça

de uma sombra que passa

sobre o meu corpo encurvado.



(pinçado do meu livro "Asas ao Anoitecer"

Fundação Cultural de Curitiba, 2005)


Direitos autorais reservados.

CAMINHO E FIM


Serenidade

é esse silencio de pedra.

Preciso tornar-me pedra,

para poder permanecer.

Cansei dos córregos perigosos,

onde a lama dita a formosura das flores.

Minha escrita é o desenho do obscuro caminho

entre o coração e a meia-lua. Uma só estrela

já é poesia e luz na estrada.

Não preciso de palmas de subsolos

camufladas pelos que agonizam

o sonho humano.

A única parte que me cabe

é a louca cegueira do poema

que fala ao coração.



(Direitos autorais reservados).

NOTURNO


Que translúcida folha

ao cair da água em ocaso, me dará

estrelas aos olhos?

Anoitece. Cconvertem-se em presas

os olhos na arena da lua.

E eu ouço o delírio do verso

juntando as pérolas do chão,

na hora que existiu

antes do nascimento das sombras.




(Direitos autorais reservados).